Correr, caminhar, pedalar ou navegar: mais do que exercícios, essas práticas podem ser caminhos para o silêncio interior e o autoconhecimento. O culto ao corpo também passa pelo culto ao espírito, e quatro livros de autores contemporâneos aprofundam essa ideia.

A busca pelo movimento solitário — seja correndo, pedalando, navegando ou caminhando — não é um exercício de fuga, mas um ato de retorno. Ao conectar essas práticas, percebemos que o corpo em deslocamento se torna um laboratório da consciência, um espaço onde o indivíduo se despoja das pressões do mundo externo para reencontrar a própria essência. A libertação não reside no esforço em si, mas na capacidade de meditar sobre o movimento, transformando o trajeto em um exercício de presença radical.

O escritor japonês Haruki Murakami, em Do que eu falo quando falo de corrida (Companhia das Letras – 2007), do alto de seus 77 anos e ainda corredor, define esse processo como uma forma de purificação e fortalecimento de sua própria “musculatura” criativa. Para ele, a corrida de longa distância não é apenas uma rotina física, mas um rito de autoconhecimento em que a solidão é uma necessidade vital, não uma carência. O escritor, assim como o atleta, precisa desse vazio para suportar o peso da própria imaginação. É nessa mesma sintonia de entrega que o filósofo francês Frédéric Gros, 60 anos, em Caminhar, uma filosofia (Editora Ubu – 2009), identifica que “o segredo do passeio é precisamente essa disponibilidade do espírito, tão rara em nossas existências atarefadas, polarizadas e prisioneiras das próprias obstinações. A disponibilidade é uma rara síntese de abandono e atividade, constituindo todo o encanto do espírito durante um passeio”.

O movimento atua, portanto, como um antídoto à rigidez do eu moderno. O escritor e jornalista argentino Juan Carlos Kreimer, 81 anos, dos quais 76 como ciclista, reforça essa ideia em seu recém-lançado no Brasil Zen Ciclismo – a bicicleta como caminho (Gryphus Editora – 2026), ao afirmar: “Querer determinar se o seu espírito nasce da função equivale a querer separar o observador do observado. Ou a mente do eu. É inato. Está ali desde sua gênese”. Quando pedalamos, corremos ou navegamos, a dicotomia entre quem executa a tarefa e quem a observa desaparece; o ser humano se funde ao ritmo do esforço, tornando-se uma coisa só com o trajeto.

Em outro trecho do livro, Kreimer compara o ato de caminhar ao de andar de bicicleta no contexto de se estar presente e atento ao que se está fazendo. “Estar no aqui e agora, recomendam os instrutores de qualquer prática desportiva; os mestres espirituais recomendam o mesmo”, analisa.

A disposição para o desconhecido, no entanto, exige uma coragem que muitas vezes desafia a lógica. Como reflete a navegadora e escritora brasileira Tamara Klink, 29 anos, em Mil Milhas (Editora Peirópolis – 2021): “não é de ontem que eu quero navegar em solitário. Eu só não esperava que pudesse começar agora. Até porque estou num país estranho, nunca fiz isso, tem uma pandemia acontecendo, não tenho endereço fixo e admito que nem sei se daria conta de lidar com os perigos da viagem”. A travessia de Klink, o pedal meditativo de Kreimer e o treino de maratonista de Murakami ilustram, cada um à sua maneira, que o ato solitário é o momento em que a vulnerabilidade se transforma em determinação.

Ao integrar todas essas experiências, chegamos ao ponto de inflexão proposto pelo pensamento do filósofo e ensaista sul-coreano Byung-Chul Han. Vivemos na era do “excesso de positividade” e da performance desenfreada, em que somos prisioneiros da nossa própria necessidade de produtividade. Murakami, Kreimer, Klink e Gros, porém, nos convidam à resistência por meio da lentidão.

Nesse horizonte, o exercício físico deixa de ser uma métrica de eficiência para se tornar uma prática de interrupção. Em um mundo transformado em um “inferno do igual”, onde a aceleração é a norma, a corrida de Murakami, a bicicleta de Kreimer, a caminhada de Gros ou o mar de Klink funcionam como zonas de silêncio. Ao caminharmos, pedalarmos ou navegarmos com intenção meditativa, deixamos de ser sujeitos de desempenho — que se autoexploram — para nos tornarmos sujeitos de contemplação. Ou, em última análise, ao nos desconectarmos do mundo externo, nos conectamos à nossa essência por meio do exercício em si mesmo. O movimento solitário não é, por assim dizer, uma forma de chegar a um destino, mas a reconquista do “tempo para o vazio”, a única forma possível de habitar a liberdade em um mundo que tenta, a todo custo, nos manter em movimento apenas para produzir, e nunca para ser.

George Patiño é formado em Comunicação Social pela Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro, e pós-graduado em Jornalismo Cultural pela Universidade Estácio de Sá, também do Rio.

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